quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ele (Aparecido Raimundo de Souza - Jornalista)


Tinha (apesar nos olhos meigos e serenos) um brilho diferente, uma claridade que parecia cegar a quem o fitasse por muito tempo. Naquele rosto de infinita complacência, a vida se apresentava de forma bastante acentuada. Talvez fosse a sua personalidade marcante, ou o seu modo de ser e de agir que faziam da sua presença um encanto único e abrangente, um enfeitiço jamais visto ou sentido. A todos -, como a mim -, em particular, essa criatura envolveu meu eu com uma forte simpatia que logo se espalhou, de imediato, por todo o resto do corpo. Era como se a ternura tivesse saído de seu habitat natural e, naquele ser repleto de mansidão feito a sua morada eterna.

Ao falar usava no timbre da voz uma tranqüilidade inebriante, uma calma que encerrava e transmitia uma segurança ímpar vinda do céu. Só podia ser do céu. Seus gestos meticulosos, finos e educados, cativavam o mais profundo dos corações, como, aliás, fascinou o meu.
Meu primeiro contato com ele aconteceu exatamente algumas horas antes de se comemorar a ceia oficial de natal - e só esse encontro bastou para lhe dedicar uma atenção maior – além de perceber a benignidade da sua fausta e suntuosa majestade.
Até então um perfeito idiota, me considerava um sujeito vil e infame. Um cara de concepção mesquinha e perversa. Minha vida, até aquele instante, tinha sido escura, triste e melancólica. Na verdade, eu passava por sérios embaraços e dificuldades. Meu caminho, a contar dos primeiros passos, sofria funestos momentos de intranqüilidades e incertezas. O negror das nuvens da infelicidade parecia não querer se afastar de sobre a minha cabeça. Entretanto, algo mudou em mim. Alguma coisa me transformou a partir daquele contato. Da minha primeira conexão com ele. Senti um novo alento tomando conta da minha alma. Na verdade, meu corpo inteiro se desprendeu de uma carga muito pesada e enfadonha. Parecia que um encosto maléfico me sobrecarregava os costados. De repente, como num passe de mágica fiquei leve. Eu flutuava por sobre as coisas. A cabeça parou de girar em torno de pensamentos difusos e os pés descalços de tantos passos inseguros acertaram terra firme. Deixei de ser barco lutando contra a corrente forte de um mar em fúria. Achei porto seguro onde atracar meus sonhos e devaneios.
Quando aconteceu nosso primeiro encontro, eu estava deitado em minha cama, triste e solitário, vazio e oco, os olhos fechados, pensando no amanhã que logo viria incerto e obscuro. Meus pais haviam saído para providenciar as compras para a ceia da noite. Meus outros irmãos brincavam na calçada em frente. Foi nessa hora que Ele chegou, de mansinho, sem que eu percebesse de onde havia saído. Veio assim, do nada, e se fez presente sem ao menos bater na porta. Disse que estava querendo falar comigo ha muito tempo. A princípio, fiquei cheio de medo, mas, ao olhar para o seu rosto e o reconhecer, fui acalmando a tensão e o medo que estavam escondidos dentro de mim. Como nossa vida é engraçada: eu tinha um amigo fiel ao meu lado, cuidando de mim o tempo todo, mas eu nunca me dera conta da sua presença. E Ele, por Deus, Ele estava ali agora. Mais perto ainda e querendo trocar algumas palavras comigo...
- Como, como você - quero dizer - como o Senhor fez isso? - Não importa meu filho. O que nos interessa é a sua situação. Fale-me da sua vida. Conte-me seus problemas. Procurei, então, expor as minhas questões mais prementes. Mostrei as necessidades básicas que se avolumavam com o passar inexorável dos dias. Contei a Ele dos meus temores. Abri a caixinha dos meus sonhos não realizados, e escancarei meus empreendimentos futuros.

Ele me ouviu atento, silencioso, me encarando bem dentro dos olhos vermelhos de tanto chorar angústias. Em nenhum momento sequer ousou me interromper. Quando finalmente terminei o rosário de mazelas que me atormentavam, me pediu que ficasse de joelhos e orasse. Obedeci. Fiquei de joelhos e orei. Ele também orou comigo. Depois me pediu calma, muita calma e desejou toda a paz do mundo para minha casa, para meus familiares e principalmente para meu coração.

Colocando as mãos em minha cabeça, fechou por breves momentos os olhos. Quedou-se por algum tempo em profundo silêncio. Findo esse prazo, tomou minhas mãos e rezou um Pai Nosso e ofereceu ao Altíssimo. Em seguida, rogou a Deus, ou melhor, ao Celestial que me abençoasse, bem como a todos que faziam parte do meu círculo familiar. Após isto, disse que precisava voltar para junto do Pai. Antes de fazê-lo, contudo, me alertou que bastaria um simples relance de olhos para aquele canto do quarto, ou mais precisamente para a parede sobre a cabeceira de minha cama. Um simples olhar e, Ele estaria comigo, a meu lado, sempre, desde que tivesse, no peito, muita fé e no coração o verdadeiro amor pelo Criador de todas as coisas.

Ele quis dizer, em outras palavras, que eu tivesse muito amor mesmo, ou seja, um amor incondicional e irrestrito a Deus, o Altíssimo e Eterno Supremo Senhor de Tudo, eu seria uma pessoa realizada e feliz. Assegurei-lhe que assim faria, caso sentisse a aflição rondando minha porta ou os meus caminhos a serem seguidos.
- Agora olhe. Mate a sua curiosidade. Veja como fiz para chegar até aqui.
Então Ele foi subindo, foi subindo, até que se postou inerte, de braços abertos, na tosca cruz de madeira que adornava a parede fria e suja de meu pequeno quarto. Daquela tarde em diante, meus dias mudaram da água para o vinho.
A noite de natal, especificamente aquela noite de natal, foi esplendorosa e mágica. Perfeita, sublime, inesquecível. Pela primeira vez eu senti verdadeiramente, a consagração de Deus Pai.
Meu corpo se encheu da unção da Sua Santidade e eu passei a ser, uma pessoa completamente feliz e realizada.